A Linda Mulher
Quando tinha 18 anos, estava cansado de ficar, estar e envolver-me com garotas da minha idade.
Elas não tinham mais nada a oferecer além daquilo que eu já conhecia.
Decidi então me interessar por mulheres com mais idade. Na faixa de 35 a 40 anos. Elas, talvez, pudessem me mostrar mais do que eu já havia praticado.
Um dia, estava numa mesa de um bar e como sempre com vários amigos, bebidas, e aqueles papos de sempre.
— Olha aquela ali! Que gatinha!
— Viu o corpo daquela?
— Olha, está entrando uma mais linda.
— Aquela de azul, se ela cruzar as pernas eu fico louco.
Eu estava totalmente desligado. Dava umas goladas no chope. Viajava em pensamento não sei em quê. Estava completamente longe. Distante.
De repente entra no bar uma mulher que marcaria minha vida para sempre.
Avistei na porta do bar uma mulher alta e de bonita postura.
Com cabelo castanho-escuro meio encaracolado.
Vestia uma saia mais ou menos justa até os joelhos, num tom bege bem clarinho.
A parte superior era deslumbrante. Estava de top lilás, com duas alcinhas delicadas e encantadoras, que desciam dos ombros torneados até a altura de seus seios.
O top caía justinho sobre a saia.
Usava uma sandália bege mais escuro que a saia, com um salto alto e fino como ela.
Entrou no bar, passou por mim, deu uma geral nas mesas, estavam todas ocupadas.
Dirigiu-se ao balcão e pediu uma bebida ao barman.
Fiquei estarrecido.
Uma mulher linda, sozinha e pede uma bebida com a maior naturalidade.
Minha mente fértil viajou em sua atitude. Pensei comigo que, além de bela e atraente, era também independente. A mulher perfeita para mim.
Levantei da cadeira e minhas pernas tremiam.
Meu corpo estava endurecido e as pernas bambas.
Um dos meus amigos, como sempre o mais engraçadinho, perguntou:
— E aí, Beto, vai encarar?
— Vou.
— Você pirou, cara. Vamos interná-lo.
Virei de costas e fui em direção à linda mulher.
No trajeto da mesa ao balcão, sentia que tudo em mim estava tremendo incontroladamente.
Cheguei ao balcão, apoiei o braço direito, o que me dava mais segurança e era uma pose de homem. Chamei o barman e pedi uma bebida.
Sei que aparentava calma. É uma facilidade que tenho. As pessoas vivem dizendo até hoje que sou calmo.
Naquele dia, de calmo eu não tinha nada. Só a aparência.
Olhei em direção da garota, e calmamente soltei:
— Oi.
Ela virou a cabeça juntamente com seus lindos cabelos castanho-escuros e abriu-me um sorriso largo.
Nesse instante não era somente as pernas que tremiam. Todo meu corpo e minha alma estavam tremendo.
Não sei quantos segundos ou minutos demorei para retribuir o sorriso.
Estava estupefato com aquele lindo sorriso, naquele rosto maravilhoso, naquele corpo deslumbrante, daquela mulher encantadora.
Sorri. E continuei mudo, porém sorrindo. Acho que permaneci assim por um bom tempo.
Ela tomou a iniciativa e disse-me:
— Está tudo bem com você?
Quando ouvi a voz meio rouca dela, desmontei.
Senti que estava saindo do ar. Flutuava. Não sabia mais onde estava. Embarquei na sua voz forte e decidida.
Por sorte, ouvi uma outra voz mais rouca, que com certeza não tinha a mesma beleza, dizendo:
— A bebida que pediu.
Era o barman.
Sorte minha. Despertei da minha contemplação e caí de novo na real.
— Está sim. Está tudo ótimo. Você não quer se sentar?
— Gostaria, mas todas as mesas estão ocupadas.
— O que você faz? — soltei.
— Sou escritora.
— E escreve sobre o quê?
— Sobre a vida. As pessoas. O modo como elas vivem e fazem as coisas.
— Ah, então você é famosa.
— Disse que sou escritora, você que está dizendo que sou famosa.
E você o que faz?
— Eu estudo comunicação. Trabalho em publicidade e quero me formar nessa área. Gosto muito de publicidade. É um tipo de trabalho criativo e com muita liberdade. Atuo como freelance, pois assim posso viajar, passear e não sou obrigado a cumprir essas regras estúpidas que as empresas implantam.
Eu não queria parar de falar. Tinha medo de que nosso papo parasse e ela fosse embora.
— Comecei trabalhando na área administrativa. Fiquei cinco anos nessa área. Vi que não tinha nada a ver comigo. Foi quando conheci uma garota que trabalhava em publicidade e resolvi largar tudo e entrar nessa área.
Meu trabalho é dinâmico, não tem a mínima rotina. Às vezes trabalho dia e noite, sábado e domingo, feriados. De repente paro e viajo alguns dias. Passeio. Ganho por tarefa.
— E a área afetiva? Está namorando? — cortou-me ela.
— Não. Não estou, decidi dar um tempo com as garotas da minha idade.
Era a deixa que eu precisava para entrar no assunto.
Concluí: Agora estamos falando no mesmo canal.
— E por que dar um tempo com as garotas da sua idade?
— Porque não acredito que elas possam me oferecer mais do que já sei.
— É mesmo?
— Sim. Elas conhecem o que eu conheço. Fazem o que eu já sei fazer.
— Será?
— Eu acredito que sim. Por isso resolvi me aproximar de mulheres mais interessantes — “não tive coragem de dizer como você”. Só pensei.
— Então entendi por que um garoto como você se aproximou de mim, com tantas gatinhas nesse bar.
Meu Deus! Quando ela disse garoto eu quis morrer. Tinha uma resposta na ponta da língua, mas só pensei “Garoto que está louco para fazer garoto com você”. Fiquei quieto olhando naqueles olhos castanho-escuros sem saber o que falar.
Sem dúvida ela percebeu o desconforto da situação.
Eu estava fixado no olhar dela. Tinha medo de tirar os meus olhos dos dela, mas estava louco para conferir o seu corpo de perto. Porém, não tinha coragem.
Foi quando ela virou seus lindos cabelos à procura de uma mesa que estivesse vaga. Nesse instante arrisquei a conferir o corpo dela.
Ah! Fiquei mais louco ainda. De perto era muito melhor.
— Chamei você de garoto por pura força de expressão. Acho você muito determinado. Vir falar com uma mulher mais velha é preciso muita coragem.
Ah! Que lindas palavras aquelas. Lambuzei-me todo de satisfação. Devo ter ficado com aquela cara boba de ursinho apaixonado.
— Bem, já que não tem mesa disponível, e a bebida acabou, vou-me embora.
Eu fiquei louco ao ouvir isso. Queria dizer-lhe não, não, não. Agora não.
Ela, determinada, pôs a mão na minha nuca, puxou meu rosto e deu um delicioso beijo na minha bochecha.
Desmontei-me todo. Nada mais tremia. Nada mais estava duro. Estava tudo aos pedaços.
Reuni os cacos, e consegui falar:
— Por que vai embora?
Ela, com toda a sua beleza exuberante, respondeu:
— Não é preciso necessariamente fazer sexo com uma pessoa para se ter prazer. Com certas pessoas a alegria e a satisfação de estar ao lado delas, ouvi-las, observar seus comportamentos, senti-las a distância, é muito melhor que o sexo. E foi assim com você. Posso garantir que valeu a pena eu ter saído de casa hoje e ter vindo até este bar e ter conhecido você.
Virou-se e foi saindo, até o seu lindo corpo sumir na porta do bar.
Durante mais de dez anos, a linda mulher acompanhou meus desejos.
Nunca fui para a cama com ela. Mas ela nunca saiu da minha cama.
Nas minhas satisfações sexuais solitárias, ela esteve sempre presente.
Mesmo quando me apaixonei por outra mulher, era ela, a linda mulher, que no fundo alimentava a locomotiva.
Nunca mais a vi.
Frequentei assiduamente o mesmo bar por vários meses, na esperança de reencontrá-la, sem sucesso.
Linda mulher, esteja onde estiver, receba agora os milhões de beijos que lhe dei todo esse tempo.
Que a vida lhe retribua da maneira mais linda e positiva a beleza com que me tratou quando eu fragilmente desejava descobrir a vida.
Hoje, homem que sou, sei que de toda beleza externa de que você é possuidora a mais exuberante é a sua beleza interna.
Que Oxalá a abençoe para a eternidade.
Considerações
Vinte e cinco anos depois de meu primeiro e único encontro com a linda mulher, pude entender suas palavras.
Conheço hoje dois tipos de vivência afetiva e sexual.
A primeira é a mais conhecida e praticada.
Estamos sós afetivamente, encontramos alguém, bate alguma coisa. Dá aquela vontade gostosa. E vamos para a cama.
Fazemos sexo. Levantamo-nos e nos vestimos. Às vezes trocamos celulares ou redes sociais.
E, tchau. Quase sempre para nunca mais nos ver.
Se nos virmos em algum lugar, possivelmente trocaremos olhares, às vezes nem isso. Ou raramente nos cumprimentamos.
E é só.
A segunda vivência, menos conhecida e pouco praticada, é a troca intensa sem que, naquele momento, aconteça alguma aproximação sexual.
Nessa maneira de se iniciar a prática sexual, prioriza-se o conhecer e não o fazer.
Busca-se alguma identificação com a pessoa, ou a ausência dela.
Há troca de olhares. Diálogo.
Investe-se em entender a pessoa.
Estuda-se suas reações. Ouve-se suas estórias.
Joga-se papo fora.
Contempla-se seu sorriso, suas expressões faciais.
É sempre olho no olho, sem ser explícita a conferência dos contornos físicos.
Busca-se uma aproximação humana, antes da sexual.
Essa segunda maneira de aproximação sexual tem muitas vantagens.
A mais importante é que, ao conhecer um pouco a pessoa, não corremos o risco de, após terminar o ato sexual, alimentar a certeza de que teria sido melhor não o ter feito.
Outra vantagem em relação à primeira vivência:
Naquela, após o ato sexual quase sempre não se tem o que falar. Fomos movidos apenas pela atração física. Não se estabeleceu uma ligação humana, apenas uma ligação movida pelo desejo sexual, popularmente chamado de tesão ou vontade.
A segunda opção proporciona a vantagem de que não somos levados apenas pelo instinto animal de fazer sexo.
Conhecemos um pouco a pessoa. Sabemos um pouco dela. E, por isso, podemos ou não concretizar o sexo. Porque muitas vezes ao conversar alguns minutos com uma pessoa podemos perceber que não valerá a pena a aproximação sexual.
Na segunda opção nos deslocamos do instinto animal do sexo para entrarmos no instinto humano da sexualidade.
Afinal, somos o único animal dotado de inteligência.
Veja bem, leitor, a proposta aqui não é avaliar ou indicar qualquer tipo de atitude humana.
Como disse o poeta: “Toda forma de amor vale a pena”.
No entanto, poderemos, no decorrer do tempo, escolher entre o melhor, o mais ou menos e o momentaneamente excitante.
Fica a proposta.
E desejo sinceramente que as gerações futuras não demorem 25 anos para descobrir essa realidade.