A Senhora do Lago
Quando faltavam três dias para finalizar o livro Caminhando pelo Amor e concluir que estava encerrado mais este trabalho de Numerologia, conhecei a sra. Martha, que me procurou para solicitar a Sinastria Sentimental de sua filha e de seu genro, que, segundo ela, estavam passando por um momento difícil na relação afetiva.
Informei-lhe que o recurso poderia ser prestado apenas ao casal, pois conforme o código de ética da Nova Corrente da Numerologia Pitagórica não é permitido prestar nenhum serviço que não seja para a própria pessoa.
Ela disse que iria comunicar minha resposta à filha e pedir a ela que entrasse em contato comigo.
Um pouco antes de nos despedirmos, ela ficou inesperadamente contemplando a parede acima da minha cabeça por algum tempo.
Depois baixou lentamente seus olhos à procura dos meus e com um sorriso leve perguntou-me:
— Quer ouvir a história da minha vida?
Surpreso, refleti por alguns segundos e, sorrindo, respondi:
— Sim, sra. Martha, desejo ouvir a história da sua vida.
E a sra. Martha, me contou a seguinte história:
“Às vezes eu me pergunto por que fui merecedora desse amor.
Talvez você não entenda, mas se tentar sentir o que me aconteceu conseguirá visualizar o que eu vivi em minha vida.
Tinha por hábito, quando jovem, sentar-me à beira de um lago redondo, de azul forte, cercado de outros lagos menores, derivados deste.
Ficava ali contemplando aquelas águas azuis, a vegetação em volta dessas águas como se as segurasse para que elas não ultrapassassem as margens.
No fim do lago existia um canal estreito que dava passagem à água e à vegetação, formando novos lagos menores, reproduzidos à semelhança do lago maior e com as mesmas características.
Sentava quase diariamente à beira desse lindo lago para sentir a serenidade e a formosura desse quadro pintado pela natureza. Permanecia horas sentada ali.
Em minha cidade natal, onde vivi até os 40 anos, a vida era tranquila, simples e pacata.
A beira do lago era meu recanto preferido. Durante anos seguidos sentei às suas margens e de lá visualizava a paisagem, sonhava, sorria, e vivia a minha humilde vida daquela época.
Havia sonhos? Não somente sonhos, mas também ilusões e emoções.
Esse adorado lago fazia parte da minha vida como as demais necessidades que tinha naquela idade. Não conseguia passar alguns dias sem visitá-lo. Ele me abastecia de vida, de sensações, de sentimentos.
A cada momento passado à beira desse lago era como se eu conseguisse entender a vida, abastecer-me de energias e vislumbrar a felicidade. Não sabia por que ele me transmitia tantas emoções. Eu já não sabia mais viver sem visitá-lo constantemente.
Quase sempre havia alguém ali também, mas somente eu permanecia tanto tempo e era sempre a última a ir embora.
O sr. Pedro era o zelador do lago. Zelador por conta própria, ele vivia num casebre à beira do lago e havia anos cuidava da vegetação e dos visitantes.
Era uma pessoa agradável, porém exigente.
Não deixava ninguém sequer tentar agredir o lago ou a natureza.
Eu gostava dele justamente porque protegia o lago de meus sonhos e fantasias.
Desde a primeira vez que vi o lago — por volta de meus 3 anos — o sr. Pedro sempre esteve presente. Solitário. Totalmente solitário.
Ninguém sabia nada dele nem de seus familiares. Nunca tinha apresentado alguém de seu relacionamento.
Era realmente uma pessoa estranha o sr. Pedro, mas respeitado e admirado por sua dedicação voluntária ao lago e à natureza.
Um dia ele sentou ao meu lado, na beira do lago, passou a mão em meus cabelos, olhou carinhosamente em meus olhos e, sério, disse:
— Ele está chegando, e quando chegar seja receptiva.
Nessa época eu estava com 28 anos. Achei estranha a sua atitude. Havia anos sentada à beira do lago e ele nunca sentou ao meu lado.
Passava por mim, cumprimentava, às vezes sorria, verificava se eu não estava fazendo nada de errado com o lago e com a natureza e seguia seu caminho.
Nesse dia ele sentou, falou, sorriu, levantou-se e foi-se embora.
Fiquei olhando o sr. Pedro sumir nos contornos do lago e não consegui entender as suas palavras.
Certo dia estava eu sentada à beira do lago comparando o azul-escuro da água com o azul-claro do céu. Era uma contemplação muito agradável.
Na terra o azul-escuro e forte, no ar o azul-claro quase transparente.
Parecia que a água de azul-escuro do lago ia subindo, subindo e subindo e, a cada subida, tornava-se mais clara até atingir a altura desejada num tom azul bem clarinho.
A impressão que dava era que o céu havia saído da água. Ou que a água ao cair do céu ficava mais escura.
Invertendo a situação por mim visualizada, o céu iria descendo, descendo e descendo até chegar à terra tornando-se um azul-escuro nas águas do encantador lago.
Dizem que no céu há anjos que protegem nós humanos, e no lago tem água que dizem compor a maior parte do planeta e do corpo humano.
Seria então uma coisa só, céu e água?
Então tanto faz estar no céu como no lago.
Eu realmente viajava quando sentava ali.
Nessas contemplações costumeiras, e em especial nesse dia em que misturei céu e água, fui surpreendida pela aparição de um jovem, como eu, que percebi passava repetidas vezes perto de mim.
Ele passou tantas vezes perto de mim que acabou por interromper a minha contemplação da água misturada com o céu.
Olhei para o rapaz, e bastou o meu olhar para ele se aproximar.
Foi logo se sentando ao meu lado, mantendo uma distância respeitosa, e falou:
— Olá, Martha, então é você a dona desse lago?
Surpresa, pensei:
‘Como ele sabe meu nome? Eu dona do lago?'. Antes que eu perguntasse, ele completou:
— Foi o sr. Pedro que me disse seu nome e falou também que você é a visitante mais assídua daqui.
— É, eu adoro esse lago e realmente venho aqui quase todos os dias e permaneço por algum tempo.
Eu estava com 28 anos e ele aparentava uns 32 anos.
Disse-me ser biólogo e que estava naquela região para fazer alguns levantamentos e catalogar algumas espécies. Morava em uma cidade grande e distante da minha.
Ficamos nesse dia algumas horas conversando e contemplando o lago. Ele me parecia muito sensível, além de atraente e culto.
Por muitos dias e meses nos encontrávamos à beira do lago, ora para passear, ora para conversar, ora para apenas contemplar em silêncio a exuberante natureza e as águas azul-escuras do lago.
Já me habituara com a companhia dele.
Quando me atrasava para ir ao lago, eu apressava meu serviço como enfermeira para poder chegar a tempo de encontrá-lo.
Percebi que não estava conseguindo definir mais se ia somente pelo lago, somente pela companhia dele ou pelas duas coisas.
Um dia, ele aproximou-se, colocou o braço esquerdo em meu ombro e permaneceu assim até que eu virei para olhá-lo, e em seguida ele lentamente aproximou sua boca dando-me um beijo lento, demorado e envolvente.
A partir de então começamos a namorar.
E, em menos de um ano, nos casamos.
Eu não me casei à beira do lago, mas passei boa parte da lua-de-mel andando, sentando nesse lugar e também rolando com ele.
O André foi para mim um homem que nunca pensei em encontrar na vida.
Vivemos trinta anos casados. Tivemos dois filhos.
Esse homem era de uma presteza, atenção e dedicação comigo que encantava qualquer pessoa que convivesse conosco.
Nas situações em que eu necessitava mudar a minha vida, e foram muitos esses momentos, ele sempre me apoiou.
Sempre esteve ao meu lado, amparando-me, incentivando-me e colocando à minha disposição o que ele havia conquistado.
Nosso casamento foi repleto de dedicação.
São incontáveis as horas que passamos juntos apenas conversando. Ele sempre me orientando, mostrando o melhor caminho. Incentivando minhas atitudes. Orientando-me nos momentos de escolha.
Nunca ouvi dele: não pode, não faça, não vá.
Quando ele discordava de uma atitude ou procedimento meu, apenas emitia sua opinião, e, sem que eu solicitasse, ele me concedia o direito de fazer o que eu queria mesmo sem a sua concordância.
Foi um homem que engravidou comigo. Acompanhou tudo de perto: a gestação, o parto e a criação de nossos filhos.
Nunca esteve ausente. Sempre presente, cumprindo sua parte.
Criamos nossa família, eu e ele, com condições financeiras confortáveis para nós, nossos familiares e nossos filhos.
Das diversas vezes em que cometi desacertos em minha vida, ele sempre esteve ao meu lado, ajudando-me a reparar os estragos, e nunca me cobrou nada.
Foi carinhoso, atencioso, dedicado, companheiro, amante, amigo e principalmente sempre presente e atuante.
Esse homem que para mim nasceu do lago, nasceu da junção do azul-claro do céu com o azul-escuro das águas do lago, pois foi lá, à beira do lago, que eu o encontrei, era um presente que a vida me trouxe”.
Nesse momento a sra. Martha voltou a fitar a parede acima da minha cabeça. Aproveitei sua pausa e perguntei:
— E onde está esse homem hoje?
Ela, novamente, desceu suavemente os olhos até os meus e disse:
— Há dez anos viemos para São Paulo, a terra dele, e há três anos ele partiu.
Antes que eu fizesse qualquer indagação, ela completou:
— Ele chegou um dia em casa e, como de costume, nos sentamos no quarto para conversar. Entre vários assuntos, ele começou a dizer:
— Martha, há alguns meses me apaixonei por outra mulher. No entanto não consigo permitir nenhuma aproximação física entre nós. Somente conversamos no serviço. Mais nada.
Não consigo mais segurar essa situação e pretendo viver com ela, só que antes de decidir quero ouvir a sua opinião.
Eu calmamente perguntei:
— Você está seguro de seus sentimentos por essa mulher?
Ele afirmou:
— Sim, muito seguro.
— É com ela que você deseja viver agora?
— Sim, é com ela.
E eu completei:
— Pois então, meu querido, siga o seu caminho com ela. E vá em paz que saberei seguir o meu.
Uma semana depois ele se mudou. Comunicamos aos nossos filhos a separação. E em paz ele foi e em paz eu fiquei.
— Entendi, sra. Martha, que em paz ele foi. Mas a sra. poderia me explicar como ficou em paz?
— Roberto, o que ele me deu nos trinta anos de casados foi o suficiente para que eu ficasse em paz com sua partida. Amei e amo esse homem e se a sua felicidade agora se encontra ao lado desse novo amor, como poderei impedi-lo? Do que teriam valido toda a atenção, a dedicação, o cuidado, o companheirismo, a participação e o entendimento que ele me proporcionou durante anos, se quando ele precisou disso eu não o tivesse compreendido?
— E a sra., após a separação, viveu um novo amor?
— Sim, mas muito distante do que vivi com ele.
— Diga-me, sra. Martha, de maneira objetiva, qual foi a principal razão que fez com que a sra. aceitasse essa separação?
— Por que eu aceitei separar-me do meu grande amor?
— Sim, por quê?
— Por que o tempo todo que esteve ao meu lado ele provou que me amava. Como poderia eu impedir a sua felicidade?
— E a sra. se sente bem assim?
— Sim, pois me senti amada enquanto estive com ele.
— Dessa sua linda história de amor eu tenho uma pergunta a fazer: o sr. Pedro — zelador do lago — em algum momento lhe disse: “Ele está chegando, e quando chegar seja receptiva”.
O sr. Pedro conhecia o André?
— Não, nunca se conheceram.
— Como nunca? O sr. André falou para a sra. que foi o sr. Pedro que lhe disse o seu nome e que a sra. era a dona do lago.
— Soube, Roberto, depois de alguns anos de casada, que o André, dias antes de me conhecer, havia tido um sonho em que um sr. idoso, de nome Pedro, lhe dizia que iria conhecer a dona do lago e que seu nome era Martha.
— Nossa! Mas a sra. conviveu com o sr. Pedro!
— Sim, convivi. Mas fui a única. Porque ninguém na minha cidade nunca viu alguém com nome de Pedro zelando pelo lago.
— É?
Ela, sorrindo suavemente, perguntou-me:
— É uma linda história de amor a minha. Você vai relatá-la no seu próximo livro?
— Como a sra. sabe de meu livro? Somente as pessoas íntimas sabem que estou escrevendo um novo livro. Mas não sabem de seu conteúdo. Como a sra. sabe que é sobre o amor que escrevo?
Nesse momento, ela levantou-se e pude observar que seus trajes eram na cor azul-escuro, igual à cor do lago que ela relatou.
De pé, curvando-se em minha direção, pegou delicadamente em minha mão e disse:
— Esse amor que relatei a você ainda não é muito praticado no plano humano. A raça humana prende-se ao tempo. Avalia seus resultados pelo tempo de permanência dos fatos em sua vida. E não pelo que realmente viveu.
A qualidade do que vivemos não está relacionada ao tempo, mas sim à intensidade do que vivemos.
Haverá um tempo em que a raça humana irá absorver da vida o melhor em apenas alguns segundos.
O amor verdadeiro é aquele que dura ou aquele que constrói sentimentos indestrutíveis?
Se a separação física momentânea for suficiente para desfazer um amor, teria sido esse sentimento realmente significativo em nós?
Quando permitimos que a pessoa amada viva sua vida de acordo com suas necessidades do momento, não seria essa uma das mais fortes provas de amor?
Só amamos enquanto temos?
Não somos capazes de abrir mão da pessoa amada para que ela seja feliz ao modo dela?
Ela em pé segurava carinhosamente minha mão.
E eu emocionado perguntei:
— Sra. Martha, diga-me, por favor, me explique, como fazemos para amar dessa forma? Como nós humanos poderemos alcançar esse amor? De que maneira?
Ela, sempre com seu sorriso suave, disse:
— É simples! Quando amamos respeitamos os direitos da pessoa amada.
Nesse momento fui invadido pela emoção.
E despertei. Em meu quarto o relógio marcava 2h16.
Levantei-me e dirigi-me ao computador.
Sentei, liguei-o e concluí o livro Caminhando pelo Amor.
